Como Investir em uma Oferta Pública Inicial IPO?

Oferta pública primária, usualmente referida como IPO (Initial public offering), é o evento que marca o lançamento de ações de uma empresa no mercado. Seu principal propósito é levantar capital para ser utilizado como investimento para expansão da empresa, sendo também realizado por empresas que já possuem capital aberto, seja por motivos de alavancagem financeira ou novas captações de recursos, ou mesmo, em razão do aumento do capital próprio. Nestes casos se trata de uma oferta secundária.

Numa oferta inicial, como a empresa ainda não está listada na Bolsa, é preciso um procedimento especial para reservar a quantidade de ações que se pretende comprar, sendo isso parte do serviço oferecido pelas corretoras. Ao adquirir ações em oferta pública, o cliente não paga taxa de corretagem nem emolumentos, ou seja, só paga o valor do ativo.

A definição do preço da ação em uma abertura de capital é feita através de uma instituição que avalia o valor da empresa e sua perspectiva futura de crescimento e de geração de lucro. O que ocorre na realidade, é que num IPO as ações que serão lançadas podem ser sub ou hipervalorizadas. Logo, o investidor não tem garantia nenhuma de que subirão de preço logo após sua estréia na Bolsa.

“O principal problema do investidor, ou seu pior inimigo, provavelmente é ele mesmo”.

Benjamim Graham

Frequentemente investidores com pouca experiência são atraídos para os IPO’s visando a possibilidade de lucros rápidos. Por mais que exista a possibilidade de que isso aconteça em alguns raros casos, é muito provável que essas ações não tenham o rendimento esperado no longo prazo. O próprio Warren Buffett faz questão de exaltar sua antipatia por IPO´s: "Você não precisa se preocupar com o que ocorre nos IPO’s, as pessoas ganham na loteria todos os dias, mas isso não é motivo para você mudar a sua estratégia de investimentos de forma alguma”. Em muitos casos investidores institucionais promovem altas especulativas num lançamento inicial por acreditarem que sempre haverá algum tolo para pagar um preço ainda mais inflacionado, seguindo a loucura da multidão desinformada ou iludido por falsas promessas. Vamos fazer um exemplo hipotético de como um “estelionato institucionalizado” é oferecido ao público:

Um grupo de pessoas capitalizadas, ou não, busca patrocinadores para financiar seu projeto de IPO da Empresa Brasileira de Turismo Espacial (EBTX3). Digamos que juntos possuam um patrimônio inicial de 100 milhões de reais injetado na empresa, cujo plano de negócio é desenvolver o turismo espacial no Brasil, estando previsto para daqui a 3 anos o início da fase operacional.

Para isso, após conseguir o patrocínio, a EBTX contrata a instituição financeira que irá preparar o prospecto do lançamento, fazer a publicidade, realizar o processo de formação do preço e a emissão das ações e, principalmente, as estimativas financeiras futuras da empresa, tais como lucro e receita.

Para desenvolver seu projeto de negócio a EBTX3 contrata dois engenheiros da NASA e faz um acordo de cooperação com uma empresa de fabricação de aviões. No prospecto inicial consta que em 3 anos a empresa irá comercializar pacotes de turismo para a órbita da Terra, estando previsto para daqui a 6 anos a comercialização de pacotes para a Lua, e para o planeta Marte daqui a 10 anos.

Em razão do histórico de sucesso de vários IPOs anteriores que em pouco tempo renderam muito dinheiro para quem reservou as ações daquelas empresas, a massa de investidores desinformados está convencida de que a EBTX é uma excelente oportunidade e que o preço de suas ações irá subir.

Além disso, a instituição responsável pelo lançamento das ações avalia a empresa em 1 bilhão, pois segundo ela o potencial futuro da empresa é enorme. E assim, suas ações são lançadas na Bolsa.

“O risco está naquilo que não conhecemos”.

Warren Buffett

São poucos os que têm a disposição de estudar e avaliar o prospecto do IPO da empresa para calcular o valor intrínseco de suas ações, a maioria está disposta a comprar essas ações a qualquer preço, agindo de forma irracional, atraídos por dicas e pelo desempenho de IPO’s anteriores, ou seja, iludidos por expectativas irreais.Como diria Luiz Barsi: Não compro vento na Bolsa!

Numa abordagem mais realista a EBTX3 é uma empresa que possui preço, mas que não possui quase valor algum, pois não gera lucro e não produz nada. Apesar de ter capitalizado 1 bilhão de reais com um capital inicial de 100 milhões não paga dividendos e está ainda numa fase pré-operacional. 

Obviamente, o investimento em empresas pré-operacionais apresenta maior risco, pois é mais difícil realizar uma análise fundamentalista de qualidade. A análise por múltiplos (P/L, LPA, GAF, etc) é deficiente, pois não há ainda resultados operacionais consistentes, fato que torna difícil a avaliação da empresa, a qual por sua vez se baseia predominantemente em aspectos subjetivos, ou seja, na capacidade da administração de entregar o prometido ou nas perspectivas do setor. Assim, seu preço de mercado é formado apenas por expectativa futura (valor extrínseco).

Há muito tempo já se sabe que no mercado financeiro tanto a demanda como a oferta podem ser criados a partir do "nada", bem como um determinado produto financeiro. O preço de uma ação não é baseado apenas em fundamentos, lucros, bens tangíveis, ou seja, em capital real, mas em expectativas, em esperanças e sonhos criados para ou pelos investidores. Entretanto, quando estes não se concretizam são os fundamentos que irão garantir algum valor para a empresa e para suas ações.

Se após 3 anos a EBTX3 anunciar que não será possível iniciar a fase operacional no prazo esperado, ou mesmo, que seu plano de negócio por enquanto é inviável, o mercado irá corrigir a irracionalidade do preço dessa ação em poucos dias. Seu preço irá sofrer uma extrema desvalorização. O que muitas vezes acaba se tornando uma boa oportunidade para os especuladores, que podem ganhar dinheiro rapidamente comprando a preços atrativos e vendendo pouco tempo depois num repique de alta, ou mesmo, alugar suas ações e vendê-las a descoberto no intuito de ganhar com queda e recomprá-las mais barato.

"É mais fácil evitar problemas do que se livrar deles."

Warren Buffett

IPOs são, por definição, algo arriscado e perigoso. Mas são também momentos onde se pode ganhar muito dinheiro em poucos dias, ou mesmo, algumas horas. No IPO da Bovespa que aconteceu em 2007, suas ações se valorizaram mais de 50% no primeiro dia de negociação. Por outro lado, na abertura de capital da Bm&F suas ações se desvalorizaram cerca de 25% no primeiro dia.

E assim como os IPO’s, os lançamentos secundários ou capitalizações também oferecem risco aos investidores, principalmente para os mais antigos. Conforme fora dito, novos lançamentos de ações no mercado primário por empresas que já possuem capital aberto são fontes de recursos permanentes para o financiamento dessas empresas.

Contudo, do lado dos investidores que já são acionistas da empresa uma capitalização em larga escala torna-se muito prejudicial, pois os resultados da empresa passarão a ser distribuídos sobre um número muito maior de ações, ocorrendo uma diluição dos dividendos e do lucro.

Uma capitalização de grande volume financeiro faz com que o P/L da empresa aumente expressivamente, o que consequentemente fará com que suas ações sejam desvalorizadas, pois em razão dos lucros passarem a serem divididos sobre um volume maior de ações, resultando na diminuição dos dividendos pagos, as mesmas se tornam menos atraentes ao preço em que se encontram.

A desvalorização de seu preço de mercado fará com que a empresa volte apresentar um P/L similar ao que possuía antes da capitalização. O P/L  (Preço/Lucro) é um indicador que mede a taxa de retorno do acionista, ou seja, indica quantos anos levará para que a empresa lucre o que foi pago pelo investidor por sua ação.

Dependendo da magnitude financeira até mesmo as cotações das demais empresas podem ser afetadas por uma grande capitalização de uma empresa, pois muitos investidores venderão ações que possuem dessas empresas para subscreverem a capitalização daquela.

"Persista, não tome um não como resposta. Se você está feliz em sentar à sua mesa, sem tomar nenhum risco, você continuará preso nela pelos próximos vinte anos".

David Rubenstein

Esse efeito devastador pôde ser observado na capitalização da Petrobrás em 2010, quando suas ações foram desvalorizadas em torno de 50% durante um ano em que o Ibovespa fechou positivo. A capitalização, considerada a maior da história, gerou cerca de 120 bilhões de reais para a empresa. Um evento considerado extremamente favorável para a empresa, mas que, contudo, fora prejudicial para os acionistas, os quais além de perderem margem na participação nos lucros tiveram seu patrimônio desvalorizado no mercado.

Assim, o processo de aumento de capital costuma ser acompanhado de incertezas, sobretudo em relação ao preço da ação no momento final da oferta. O aumento da incerteza se traduz em crescimento do risco do investimento, o que implica queda dos preços das ações negociadas.

Contudo, o mercado tende a reagir positivamente após a oferta, já que esses recursos serão destinados ao crescimento da empresa, trazendo perspectivas de expansão dos resultados futuros e, consequentemente, maior retorno aos acionistas. O que pode significar que em alguns casos o melhor momento para se investir nas ações dessa empresa seja após a capitalização haver ocorrido, ao invés de se investir através da própria capitalização.

“O público especulativo é incorrigível. Em termos financeiros eles sequer conseguem contar até três. Se parece existir algum ‘movimento’ em andamento eles entram em qualquer coisa, a qualquer preço.

Benjamin Graham

Ofertas públicas são frequentes quando há otimismo por parte do mercado, o que garante às empresas que façam o levantamento do capital necessário através da venda de suas ações a preços inflacionados e, devido a esse momento de euforia, a maior parte dessas ações se valorizam. Contudo, estudos no mercado americano mostram que o desempenho médio dos IPO´s no longo prazo fica bem abaixo do desempenho das empresas mais maduras. Além disso, o mercado é cíclico e em algum momento ficará pessimista, fazendo com que o preço das ações desses IPO´s se desvalorizem expressivamente em razão de apresentarem altíssimos P/L´s. 

Investidores que pagam um P/L de 50 vezes o lucro em empresas novas e não testadas não possuem qualquer margem segurança a seu favor. O prometido crescimento exuberante no futuro nunca é garantido e ainda que as vendas consigam crescer substancialmente os lucros podem não subir na mesma proporção. Caso isso ocorra, eventualmente o mercado irá desvalorizar preço da ação para que se ajuste a realidade, podendo fazer com que o preço dessa ação facilmente caia 50% de forma que se ajuste a um P/L próximo à média da maioria das empresas, entre 15 e 20 vezes o lucro, o que ainda seria uma avaliação muito alta. Manter uma posição durante uma correção dessa magnitude pode custar ao investidor um prejuízo expressivo. E, ao contrário daqueles investidores que compram suas ações próximo ou abaixo do seu valor intrínseco, o dono de uma ação dessas não possui qualquer base sustentável para acreditar que essa companhia vai algum dia retornar ao seu P/L de 50.

O ano de 2007 foi marcado por uma febre de ofertas públicas e uma enorme procura pelos investidores que participavam do rateio inicial e logo em seguida vendiam as ações no primeiro dia de estréia na bolsa com expressivos ganhos. Quanto maior a demanda maiores serão as chance de valorização da ação, pois muitos investidores que não conseguiram reservar o total do valor pretendido irão comprar no dia do lançamento, implicando na valorização do papel. Mas ainda assim não existe garantia alguma de que o papel irá subir de preço.

“A loucura é rara em indivíduos isolados, mas em multidões,  grupos, nações e faixas etárias, é a regra.

Friedrich Nietzsche

Antigamente se adquiria através de IPO’s ações de empresas que tinham um bom histórico de crescimento e que apresentavam bons resultados à medida que se desenvolviam, permitindo que o investidor vendesse suas ações com uma significativa valorização. Entretanto, o que se observa hoje em dia é que a perspectiva de crescimento e as expectativas em relação ao futuro da grande maioria das empresas que abrem capital já vêm embutidas no preço de lançamento de suas ações. Na maioria dos IPO’s realizados hoje as ações já são lançadas a preços hiperflacionados.

Em razão disso, é recomendado cautela e uma análise mais detalhada dos prospectos de novas aberturas. É preciso avaliar se o preço sugerido na IPO é compatível com a relação preço/lucro. A maioria das empresas que estréiam na bolsa nascem com P/Ls acima de 50 anos. Armadilha perfeita para perdedores compulsivos que não conseguem resistir a uma dica de investimento ou a alguma novidade no mercado, sempre à procura de algum “esqueminha” especulativo para enriquecimento rápido baseados em informações superficiais e exageradas. Iniciantes são sugestionáveis e tendem a acreditar que IPOs são oportunidades certas para ganhar dinheiro rápido, seguindo a empolgação do mercado e a publicidade das corretoras e da mídia. De fato, a história mostra, àqueles que a estudam, que a humanidade é um rebanho a ser tosado, mas felizmente a lã sempre volta a crescer.

No ano de 2012 praticamente todas as ações lançadas em IPO tiveram expressivas quedas de preço já nos primeiros dias de estréia no mercado. Dessa forma, há um risco maior em comprar uma ação que nunca foi negociada porque não se conhece o histórico daquela companhia, já que ainda não há um histórico de relatórios e balanços disponíveis para análise. Logo, é preciso conhecer bem os fundamentos da empresa antes de decidir entrar num IPO. Leia e estude muito, tenha certeza do que está fazendo. Não acredite no mito de que um IPO é investimento certo.

“Sou um melhor investidor porque sou um homem de negócios, e sou um melhor homem de negócios porque sou um investidor”.

Warren Buffett

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